Jesus e Plutão

Jesus, o Cristo, tanto na Kabbalah quanto na Astrologia, é comumente representado pelo Sol. Na Etz Chaiyim1 (Árvore da Vida), o Sol é o astro da esfera de Tiphereth, a Beleza, o Coração da Criação. Não é à toa que a Via de Cristo é a Via Cardíaca. O Sol é o astro doador de Vida (e vida em abundância!). Nesse caso, Jesus seria o Rei, pois o Sol é o regente do Arquétipo de Leão, o Rei da Natureza, o “vigário” entre o Céu e a Terra, pois “ninguém vai ao Pai”, senão por ele.

Outros poderiam arriscar-se a associar Jesus a Júpiter, em Chesed, o centro do Pilar da Misericórdia e o Pai da Fé. No entanto, eu me atrevo a associar Jesus, ao lado do Sol, também a Plutão, o Senhor das Regiões Inferiores. Antes de cuspir nesta matéria, atreva-se você, também, a lê-la a seguir! 😉

Concentremo-nos nas duas associações ao Cristo que considero mais plausíveis, a saber, a do Sol e de Plutão, que são extremos do Sistema Solar.

O Sol, na Kabbalah, tem sede simbólica no centro da Etz Chaiyim, perfazendo o local para onde convergem todas energias da Vida e sobre o qual repousa a função de equilibrar as duas colunas simbólicas do Templo, os chamados pilares da Misericórdia e do Rigor.

Plutão, por sua vez, permanece velado, sem sede aparente na simbologia da Árvore, ficando subjacente a uma décima primeira esfera na estrutura desta. Tal esfera “oculta” chama-se Da’ath2 que, em hebraico, significa “conhecimento”. Simbolicamente, ela se localiza no interior da tríade máxima da Árvore da Vida. Entre esta tríade divina e as partes inferiores da Criação, localiza-se um tipo de abismo, conhecido como Véu de Parokheth3, um tipo de estágio a partir do qual a alma em ascensão, ao atravessar, não conseguiria mais voltar aos “mundos ordinários”.

Vejo na biografia de Jesus, o Cristo, a manifestação desses dois planetas, Sol e Plutão, com evidências de sobra. Enquanto Jesus encarna o Sol, Jesus é:

  • o herói que se sacrifica, de forma altruísta, em favor dos que o acompanham;

  • a personalidade que atrai a si os olhares perplexos de admiração e inveja de todos quantos o encontram;

  • aquele que planeja sua pregação, instrui e vai à frente de seu círculo de discípulos.

Quando o mesmo Jesus manifesta Plutão, ele:

  • extrai a podridão interior das pessoas e expõe-na de forma crua e irrefutável;

  • apazigua os corações carregados de ódio e culpa;

  • esclarece os confusos;

  • declara a Verdade sem pudores, doa a quem doer.

Jesus ora traz a Vida, ora adverte para a Morte. Ele tanto doa alegria, quanto fulmina os poderosos. Ao mesmo tempo, mostra-se à luz do dia e retira-se para a solidão da noite. Generoso como o Sol, terrível como um vulcão. Nas próprias palavras dele, “astuto como uma serpente, mas manso como uma pomba”4. Por assim dizer, vemos, em Jesus, o Escorpião plutoniano-marciano e o Leão solar.

Livremente, sem qualquer medo de errar (e eu corro esse risco), poderia representar a Vida de Jesus como uma grande conjunção Sol-Plutão em Escorpião. Senão, talvez fosse como que uma conjunção de Sol nos primeiros graus de Escorpião com Plutão nos confins de Libra, ou vice-versa.

Escorpião é a Porta entre um mundo e o outro, é o Poder sem necessidade de palavras ou espetáculos. É a aversão pelas convenções, a rejeição da covardia, a compaixão para com os contritos e a ira contra a profanação do que é realmente sagrado. Plutão, através de Escorpião, vem-nos trazer a chocante verdade sobre o que somos e o que escondemos, fulminando-nos sem trégua com a certeza de que não podemos fugir, por muito tempo, de nosso Subconsciente, de nossa contraparte adversária, de nosso lixo sob o tapete vermelho.

Sol e Plutão, em Jesus, trazem Luz e Sombra para perto dos seres humanos. Evoca o supremo medo da aniquilação, aniquilando-nos em vida para que encaremos a Morte com honra, verdade e sem medos, pois “aquele que buscar salvar sua Vida, perdê-la-á”5. No entanto, vejo que é em Plutão que Jesus cumpre, finalmente, sua Missão. É no beijo de Judas, o grande escorpiano dentre os Doze, que Jesus começa a expor quão obsoleta é a preferência ora pela Água, ora pelo Fogo. Transmutando a Vida em Morte de si, e a Morte de carne em Ressurreição da mesma, Jesus nos lembra que, segundo o mesmo João Batista (o austero e penitente profeta do Fim da Era de Capricórnio), viria batizar-nos “com o Espírito Santo” (fogo)6.

Não há transmutação ou ressurreição sem Plutão. Por isso, Jesus desceu à mansão dos mortos e pregou aos que lá estavam exilados. É ele, portanto, tanto Senhor da Vida (Sol) quanto Senhor da Morte (Plutão), uma conjução viva que nos leva, pelo pilar do meio da Árvore, à contemplação do mysterium da Fé (Da’ath, o “conhecimento” daquilo que não se pode ver)7. Lembremos que, após sua transmutação (a Divina Alquimia da Rosa de sua Alma na Cruz de sua Carne), o “véu do Templo” (simbolicamente, Parokheth) rasgou-se de cima abaixo8. Os Graus Maiores da Iniciação estavam, por assim dizer, então acessíveis aos seres humanos, convidados pelo Cristo a serem partícipes do Corpus de sua Noiva.

***

NOTAS

1 Etz Chaiyim, em hebraico, “Árvore da Vida”. Para saber mais: Etz Chaiyim – a Árvore da Vida. Hermanúbis Martinista: Artigos. Disponível em: < http://goo.gl/pnxrE6 >. Acesso em: 18 de agosto de 2016.

2 Da’ath: em hebraico, “conhecimento”. Além dos dez níveis ou esferas da Árvore da Vida, há Da’ath, a esfera “oculta” que, simbolicamente, pode ser alcançada apenas por aquele que passa pelo Abismo que há entre o Mundo da Criação (B’riah) e o Mundo da Formação (Yetzirah). Para saber mais: Da’ath. Guil Fern: Esoterismo/Kabbalah. Disponível em: < http://goo.gl/zB9WSJ >. Acesso em: 18 de agosto de 2016.

3 Véu de Parokheth, no Judaísmo, era o véu que guardava dos olhares profanos o Sancta Sanctorum (Santos dos Santos), o recinto mais sagrado do Templo de Jerusalém, onde apenas sacerdotes “puros” poderiam entrar para oficiar a Yehovah. Na Kabbalah, simboliza um ponto crítico que separa o as três esferas superiores das sete inferiores, após o qual entrava-se em contato com Da’ath e o ego, se vitorioso na “prova” contra o Anjo do Abismo, era destruído e o Ser unia-se, puro, ao Todo Universal.

4 Mateus, 10, 16.

5 Marcos, 8, 35.

6 Marcos, 1, 8; Atos, 1, 5.

7 Carta aos Hebreus, 11, 1.

8 Mateus, 27, 51; Marcos, 15, 38, e; Lucas, 23, 45.

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