Escorpião e a questão da natureza do Mal

Dentro da questão do Mal, cabem várias perguntas. Vamos por partes — como diria Jack, o Estripador. O importante é que tentemos nos livrar do maniqueísmo dualista que engessa todo o debate e chantagia o pensador, forçando-o a viciar sua análise sempre por um dos gatilhos politicamente corretos e prediletos das massas. Esvaziemos a praça! Ao trabalho!

Introdução

Por que vemos tudo em termos duais? Por que deveríamos pensar que cada coisa ou é boa ou má, ou que tem um lado bom e outro ruim?

O homem está em um mundo em movimento. Estamos imersos em um mundo com caminhos que passam por locais diferentes e nos apresenta diversas opções. Uma pedra: temos de fazer uma escolha. Contornar a pedra apenas nos retarda a dor de cabeça, mas pedras aparecem aos montes pela estrada. Temos de escolher. Como somos preguiçosos para pensar de forma abrangente, nossa percepção tende a classificar todas as coisas em nomes únicos e qualidades em pares, que chamaremos de boa e ruim. Isso serve para avaliar situações pontuais e restritas no Tempo. Ou seja: bom ou ruim é o que nos traz prazer ou dor, sucesso ou desgraça, lucro ou prejuízo.

Um cristão vai pensar que, mesmo num futuro que ele, objetivamente, não pode assegurar, o Céu é bom e o Inferno é mal. Não quero inverter essa percepção, até porque também não posso assegurar nada. Mas, esse reducionismo e maniqueísmo antitéticos acaba estendendo-se a todas as outras questões análogas. Até chegar em Deus. Deus é bom, Satã é mal. Ora, Deus deve comportar tudo, o Bem e o Mal (enquanto figuras simbólicas), não apenas um deles. Se comportasse apenas o Bem, não seria Eterno, pois o Mal não teria vindo do Bem, pois do Bem não se origina o que lhe é contrário.

O Bem e o Mal: exemplo da Dualidade

O que podemos supor é: o Bem nasce junto com o Mal. O Bem jamais seria reconhecido como Bem (num Universo limitado, cuja Origem não enxergamos) se o Mal não lhe tivesse surgido como antítese automática. O Bem e o Mal surgem da mesma Fonte, a Mente Suprema, o Ente Sonhador — Deus, se assim desejarem. Deus está acima do Bem e do Mal, não sendo qualquer um de ambos.

Com efeito, se não fora Plutão reinar nos Ínferi (Infernos), as almas dos mortos vagariam pela Terra sem rumo, atormentadas e sem descanso. O que é mal, é desagradável, horroroso ao nosso afetado ser, tais quais os túmulos, a decomposição da carne, as Sombras, a solidão, bem como o enfrentamento das culpas e remorsos. Pessoas com a Consciência pesada, com certeza, têm muito a temer acerca dos Infernos, o Lar onde não chega a Luz do Sol.

Para as pessoas de más inclinações, o Mal é ruim e o Bem é algo a ser invejado, mas dificilmente atingível. Para as pessoas mais disciplinadas, o Mal é uma pistola de água fria e o Bem é bom, e ponto final. Portanto, conceitos do Mal são móveis, embora alguns estados de espírito são desagregadores (alguns diriam prejudiciais) e atuam desmanchando o que não presta e é pestilento ao Mundo. SIm, o Inferno é útil e seus Guardiões atuam cumprindo a Lei, não obstante as tolas anedotas que deles contam os mortais.

O Bem e o Mal devem ser entendidos, portanto, como grandezas cósmicas inversamente proporcionais. A Dualidade Primordial é isso: o número Dois, surgido do número Um acrescido de si mesmo, sem ser mais Um anterior, mas a Ele retornando sempre. O Mal não é apenas necessário; é fundamental ao Universo. Só existe um lugar em todo o Universo, em qualquer dos planos de existência ou não-existência, em que a Dualidade não está presente: no Primeiro Ponto e no Poder que o originou (perfazendo uma mesma Unidade).

Satã

Satã (ou Satanás) significa, em hebraico, o “Adversário” ou “Acusador”. Satan ou Ha-Satan é, por assim dizer, a pedra no Caminho, a mosca da sopa, o pentelho, o pé-no-saco. Ele se interpõe entre nós e nosso Caminho, seja ele qual for. Superando-o, com certeza, venceremos qualquer desafio, seja para o bem (humanamente falando) ou para o mal. Por esse conceito, não vemos em Satã uma ação para o Mal, mas uma obstrução, uma oclusão, interrupção, dificuldade, palavras que denotam qualidades passivas, não ativas.

Satã se opôs ao culto do Logos feito homem (Cristo), segundo o Cristianismo. Ele, portanto, tem uma natureza negativa, que tende a obstruir as ações, ou liberar as iniciativas que favorecessem suas posições. Era um “anjo” filho-da-puta, o cara que estragava a festa. Num contexto mais universal, ele seria a força da Morte que permeia toda a matéria e engole tudo e a todos.

Ele é Príncipe deste Mundo não por castigo, mas por sua Natureza desagregadora. É a fome cega, o cobrador, que pune os incautos e ameaça os precavidos. Para os greco-romanos, seria Saturno, o Entendimento, o que faz a roda girar para sempre e a Vida renascer a cada momento. É o “antes” sendo devorado pelo “depois” no ponteiro dos segundos no relógio. Não perdoa, jamais. Se perdoar, para de devorar. Se parar de devorar, a Terra não descansa e começará a inflar como uma saco de lixo em dia de greve de garis.

Escorpião e o Maniqueísmo

Segundo a Tradição, Escorpião tem seu Arquétipo na Casa VIII, a Casa da Morte e da Destruição. Na verdade, Escorpião está entre o Juízo (Libra, Vênus) e a transformação causada pelo Juízo (Sagitário, Júpiter), entre o último e supremo momento da Vida e o recebimento do quinhão no Além-Vida. Os nativos Escorpianos são do tipo “oito ou oitenta”: ou polarizam tudo ou dissolvem tudo. Eu, particularmente, tendo a ver Escorpião como um signo que age ora de forma implacável no cumprimento de ordens, ora de forma compassiva, compreendendo profundamente as perturbações sofridas pelas almas, sempre acossadas pelas dúvidas, pelo medo, pelo torque das forças duais do Mundo.

O que é bom para alguém, não o é para o outro. Isso vale para os valores tidos como maus. Assim como a Morte é um trabalho de transformação das formas e das essências, uma etapa, portanto, da Vida, Escorpião tende a entender que o mal é necessário e fundamental para a compreensão do Bem. Tudo que é feito, dito, pensado ou concebido recebe seu penhor, mas o ato em si deve ser inteiramente livre. Se o ente assumir, inteiramente, as consequências de sua Vontade, ele deve ser deixado totalmente livre para escolher o que fazer, que caminho seguir e como pensar.

É desse ponto de vista que o Escorpiano abomina toda e qualquer coação ou chantagem mental reforçadas por religiões maniqueístas ou filosofias teístas, que aterrorizam as pessoas sob ameaças de penas eternas que não se conhece realmente. O medo incutido fanaticamente é uma opressão verdadeiramente satânica, seja de que forma for. Aqui, não encorajo as pessoas a agirem em prejuízo de quaisquer outros seres, mas defendo o direito de cada um de escolher o que fazer e pensar em cada momento. Igualmente, é uma fábula ridícula o tal Deus de “Amor” quando não se conhece nem bem o amor humano, quanto menos o Amor de Deus (que também não se pode conhecer). O que poderíamos fazer é admitir que não sabemos coisa alguma a cerca do Criador, a não ser que Ele só pode estar fora do Tempo-Espaço e que dele vieram uns misteriosos e santos enviados e mensageiros. Também poderíamos deixar de brigar para saber quem é o mais competente mensageiro, o mais resplandecente ou temível, quem tem mais poder ou sei lá mais o que.

A Dualidade

Em essência, não existe Bem e/ou Mal. Essas duas qualidades são formas de classificar a Realidade que nos cerca. Portanto, são subjetivações, embora algumas subjetivações sejam unânimes entre o seres humanos. Não existem independentes uma da outra, nem poderiam. Não haveria como algo ser sentido como bom se não houvesse outra coisa que fosse-lhe o contrário (mal) ou menos boa. Se tudo fosse bom, nada seria bom, senão alguma outra coisa sem contrário (absoluta ou hegemônica). Isso aplica-se a todos os pares de opostos (e seus intermediários): quente e frio, claro e escuro, alto e baixo, grande e pequeno, etc.

Exemplo de como a dualidade é apenas relativa: para um ser trevoso em seu atual estado de escuridão, o Céu seria um imenso vazio, pois não o veria. E por que? Por causa de sua Natureza, que não pode estar no Céu. Seria um tormento a um demônio estar no Céu, independente de querer lá estar ou invejar os que lá se sentem felizes. Mas, no Inferno, um demônio é feliz? Feliz e infeliz são subjetivações — lembremos! O demônio, no Inferno, é o que é e está onde deveria estar. Simples assim.

Satã reina no Caos não por castigo, mas pela adequação de sua natureza ao Caos, a força cega e desagregadora que simboliza. Satã reina nas Trevas por direito e disso depende a subsistência do Universo material. Assim como é da resistência da parede que depende a manifestação da força num soco, também é do poder do Caos que a Vida se torna sensível e evolui aos nossos olhos. A Vida nasce da Fonte, mas são as pedras do Caminho que produzem o ruído dos rios caudalosos.

Sinceramente? Não reverencio Satã, mas o respeito. É a Força contrária, é a Luz errante a colocar ordem onde não havia coisa alguma. E a quem Escorpião reverencia, realmente? Escorpião adora ao seu Criador, Fonte Eterna do Ser. Respeita Satã, mas está no meio da Porta da Casa VIII, a observar os que chegam e os que partem. Está ali a servir de referência para aqueles que buscam algum sentido nessa guerra de forças diante da qual mal nos aguentamos nas pernas, senão que, como furacão, nos assusta e nos deixa perplexos.

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